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Por Marcelo Alves*
Como temos antecipado e destacado ao
longo de todo este ano, a venda direta no Brasil enfim ingressou
em uma aguardada fase de “desacomodação” de
mercado, com a entrada de novos “players”, nacionais
e internacionais. Como em qualquer nicho de mercado promissor,
esse movimento é inevitável, dada a atratividade
conquistada pelo setor graças a quase uma década
de resultados positivos ano após ano e à média
de crescimento acima do varejo nos períodos de recessão
recente. Portanto, não deveria ser surpresa para as
empresas já estabelecidas que em algum momento haveria
uma bem-vinda demanda por mão-de-obra qualificada,
a qual com certeza seria primeiramente buscada dentro de
seus quadros. Bem-vinda porque ajuda a “sacudir” o
mercado, a forçar a reavaliação de conceitos,
obriga todos a rever suas políticas internas, aprimorá-las
e inová-las para reter os talentos e valorizar os
investimentos já feitos no desenvolvimento de pessoas.
Porém, temos sentido um certo desconforto no mercado
diante das ações de recrutamento promovidas
por novos “players”. E eis aqui um cenário
oportuno para avaliar estas reações de resistência
e autodefesa à luz de alguns conceitos já consagrados
nos mercados tradicionais fora da venda direta, que ao longo
dos últimos 10 anos vivenciaram grandes transformações
em suas estruturas profissionais, e aprenderam a incorporar
importantes parâmetros de atuação em
suas políticas internas de RH — diversificando
as modalidades de remuneração, mas principalmente
adotando políticas estratégicas e consistentes
de DESENVOLVIMENTO, MOTIVAÇÃO E RECONHECIMENTO
de pessoas.
Acompanhando recentes movimentos de
migração
de profissionais entre as empresas de vendas diretas, ouvimos
destes profissionais que eles “aceitaram propostas
de mudança de empresa, muito menos pela oportunidade
financeira, pois havia diferenças mínimas de
ganho entre uma e outra empresa, mas principalmente pelas
estruturas de trabalho oferecidas” — a solidez
de um plano de carreira melhor estruturado, regras comerciais
mais claras e transparentes, melhores oportunidades de desenvolvimento
pessoal, investimentos melhor dimensionados em toda a estrutura
de marketing e de apoio a vendas, metas desafiadoras, mas
realistas e apoiadas em uma cadeia de gestão e processos
mais organizada e dinâmica. Todos esses fatores por
si já constituiriam uma forma indireta de reconhecimento
e motivação para profissionais em busca de
um melhor cenário para trabalhar e se desenvolver,
mas suas decisões de mudança foram ainda amparadas
por políticas inovadoras e concretas de reconhecimento
e motivação, que as novas empresas vêm
apresentando para atrair estes talentos.
Apesar de toda a resistência e incômodo que
a perda de profissionais-chave representa para as empresas
já estabelecidas, o segmento vive uma ótima
oportunidade para repensar toda sua estrutura de remuneração
+ reconhecimento + motivação, fatores fundamentais
para manter o interesse e foco na busca de resultados pelas
equipes de trabalho de qualquer setor da economia — mas
que na venda direta pesam muito mais do que nos outros segmentos,
são definitivamente estratégicos. Perder pessoal
qualificado e experiente nas áreas de Desenvolvimento
de Produtos, Marketing e Vendas por estes motivos pode significar
a perda, em pouquíssimo tempo, de percentuais representativos
de sua fatia de mercado, uma vez que os consumidores de nossos
produtos os adotam não por um motivo isolado — mas
justamente por um mix de motivos que mescla a qualidade e
diferencial do produto em si, aliado à qualidade e
confiança na relação com o pessoal de
vendas, devidamente amparado pelos esforços de marketing
e apoio a vendas que a empresa disponibiliza.
Portanto, esta é a hora de identificar se a sua empresa
aproveitou todos estes anos de crescimento do segmento e
os “suados” percentuais de market share (conquistados
graças à alocação de seus talentos),
para construir mecanismos internos consistentes de retenção
desses talentos. Ainda é possível recuperar
o tempo perdido e implantar políticas e processos
para evitar a perda de profissionais valiosos. Só assim
será possível conviver com os movimentos cíclicos
inevitáveis de oportunidades de trabalho oferecidas
por novos concorrentes internacionais, que chegam trazendo
condições inovadoras e atrativos profissionais
diferenciados, ou nacionais que aproveitaram este mesmo tempo
para estudar o mercado e identificar as brechas que poderiam
explorar para cooptar legitimamente estes talentos.
Podemos estar diante de um cenário semelhante ao
que redesenhou de maneira significativa o mercado da venda
direta no início da década de 90, apenas com
a mudança dos personagens! Tiramos as lições
daquele momento do passado para ter controle da posição
que ocuparemos no mercado neste novo presente?• *Marcelo Alves é diretor
de marketing da DirectBiz. |